14 setembro, 2026

A medicalização e a patologização da saúde das crianças

 

 Oliveira (2025, p. 102)

A dissertação de mestrado profissional de Rossana Dias Oliveira (UFES, 2025) investiga a proliferação de laudos clínicos na primeira infância e os processos de medicalização no cotidiano dos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) de Vitória/ES.  O problema e contexto é a expansão acelerada de diagnósticos neurológicos e psiquiátricos (como TDAH, TEA e TOD) em crianças de 0 a 6 anos, transformando movimentos corporais, ritmos de aprendizagem e singularidades em patologias biológicas individuais. 

O objetivo deste trabalho foi problematizar a função do laudo médico no ambiente escolar, questionar a quem ele serve e analisar os impactos do "imperialismo médico" sobre as práticas pedagógicas e a Educação Especial.  

Entre as principais conclusões, o estudo demonstra que o laudo frequentemente opera como um dispositivo de poder e rotulação precoce, promovendo a submissão química das crianças, antecipando diagnósticos definitivos e desresponsabilizando contextos sociais, familiares e pedagógicos do processo de desenvolvimento infantil.  

Como pré-requisito do mestrado profissional, a pesquisadora 
Rossana Dias Oliveira, sob orientação de Jair Ronchi Filho, desenvolveu um infográfico direcionado à desconstrução da centralidade do laudo clínico na primeira infância

O infográfico intitulado “A Medicalização e a Patologização da Infância” apresenta uma arquitetura de informação cuidadosamente planejada em quatro painéis verticais sequenciais. O fluxo de leitura estabelece uma progressão pedagógica e reflexiva fluida, que se inicia sensibilizando o leitor sobre a pluralidade das infâncias e problematizando o crescimento no número de diagnósticos, como o TDAH. Em seguida, a peça transita para um bloco de nivelamento conceitual, diferenciando os termos medicar, medicamentar e medicalização, para então apresentar evidências estatísticas sobre a patologização e culminar em propostas práticas de acolhimento e desmedicalização fundamentadas na valorização do brincar.

Por ser um produto muito bem feito, vale a pena analisar os detalhes deste infográfico.

Sob a perspectiva do design gráfico, o material destaca-se por romper intencionalmente com a estética hospitalar e fria típica dos cenários clínicos. Em vez de tonalidades sóbrias ou acinzentadas, a paleta visual adota tons pastéis e luminosos, como o amarelo solar, o verde-água, o rosa suave e o azul-céu, complementados por manchas de cor que remetem à aquarela e ao giz de cera. Essa escolha cria uma atmosfera acolhedora e intimamente conectada ao universo infantil, funcionando como um contraponto estético e ético à rigidez dos laudos e da rotulagem médica.

Essa intencionalidade visual reflete-se também na escolha da tipografia e na estruturação do layout. O corpo do texto é composto por uma fonte sem serifa limpa, acompanhada de um espaçamento entrelinhas generoso que garante legibilidade tanto em formatos impressos quanto em telas digitais. Os títulos e destaques utilizam uma tipografia em caixa-alta com traços orgânicos que simulam o desenho manual, enquanto as aspas manuscritas e os balões de diálogo dividem o conteúdo em microfatias de informação. Além disso, as ilustrações representam crianças de forma diversa e inclusiva — contemplando diferentes etnias, tipos de cabelo e condições físicas —, valendo-se de contornos soltos e elementos lúdicos, como estrelas e rabiscos, para reforçar a ideia de liberdade.

No âmbito da multimodalidade, o infográfico articula com eficácia a linguagem verbal acadêmica e os modos semióticos visuais e quantitativos. Conceitos densos ancorados em autoras de referência, como Maria Aparecida Moysés e Cecília Collares, são traduzidos em imagens afetivas que auxiliam no entendimento imediato do leitor. Essa complementaridade manifesta-se, por exemplo, ao associar a discussão sobre intervenções farmacológicas à ilustração de uma cápsula, ou a proposta de desmedicalização à imagem de crianças brincando ao ar livre. Somado a isso, o uso de uma tabela com dados estatísticos sobre a venda de Ritalina no Brasil insere o modo semiótico quantitativo, conferindo rigor científico à tese de que o aumento do consumo de psicofármacos na infância é um problema social concreto.

Por fim, a peça expande sua multimodalidade ao incorporar recursos interativos e de acessibilidade que extrapolam a leitura estática. A presença de códigos QR no topo do primeiro painel permite ao leitor acessar conteúdos em áudio e em Língua Brasileira de Sinais (Libras), integrando as dimensões auditiva e espaço-gestual. Do mesmo modo, chamadas para vídeos explicativos e páginas de redes sociais conectam o plano impresso ao ambiente digital dinâmico. Dessa maneira, o design da obra não cumpre apenas uma função ornamental, mas atua como recurso argumentativo central, em que a leveza do traço e a vibração das cores sintetizam a própria defesa do direito de vivenciar a infância sem rótulos.

O infográfico é organizado em 4 painéis verticais sequenciais (concebido como carrossel digital ou folheto sanfonado impresso). A leitura segue uma progressão pedagógica e reflexiva bem clara:
 

Painel 1 (Sensibilização e Apresentação): Introduz a pluralidade das infâncias e problematiza o aumento de diagnósticos e laudos (como o TDAH).

 

Painel 2 (Conceituação / Glossário): Diferencia conceitos-chave (Medicar vs. Medicamentar vs. Medicalização) para nivelar o conhecimento do leitor.


Painel 3 (Evidências e Problematização): Apresenta as causas da patologização e traz dados quantitativos sobre a venda de Ritalina no Brasil.


 

Painel 4 (Propostas de Ação e Desmedicalização): Aponta caminhos práticos (brincar, contato com a natureza, desemparedamento) e conclui com um manifesto político/educacional.



Como já foi mencionado acima, em relação com as cores podemos ver um rompimento com a estética hospitalar: Em vez de usar azuis escuros, cinzas ou tons frios associados a ambientes clínicos e farmacêuticos, o design adota uma paleta em tons pastéis e luminosos (amarelo solar, verde-água, rosa suave, azul-céu e laranja).

Também as manchas de cor estilo aquarela e giz de cera ao fundo criam uma atmosfera acolhedora, afetuosa e ligada ao universo infantil, reforçando visualmente a tese de que a infância precisa ser vivenciada com leveza, e não sob a rigidez dos laudos.

Esses desenhos com traços simples e contornos soltos (estrelas, nuvens, rabiscos) opõem-se à ideia de enquadramento ou "rotulagem" das crianças.

Em relação com a tipografia e hierarquia visual os títulos e destaques  utilizam uma tipografia em caixa-alta com traços levemente orgânicos/descontraídos, simulando o traço manual sem perder a legibilidade.

O corpo do texto emprega fonte sem serifa (sans-serif), limpa e com ótimo espaçamento de entrelinhas, garantindo leitura rápida tanto no papel quanto na tela do celular.

O uso de aspas manuscritas, balões de pensamento e pontilhados ajuda a fatiar o texto em "microfatias de informação" (chunking), reduzindo a carga cognitiva.

As ilustrações retratam crianças com diferentes tons de pele, tipos de cabelo, expressões faciais e contextos (incluindo uma criança em cadeira de rodas no painel 1).

Na relação imagem-texto observamos claramente a complementaridade intersemiótica, pois o texto verbal traz conceitos teóricos densos, enquanto as imagens "traduzem" essa teoria para uma dimensão afetiva. Por exemplo, no painel 2, ao lado de "O que é medicar?", há a ilustração simplificada de uma cápsula de remédio e no painel 4, ao falar de desmedicalização, vê-se uma criança brincando ao ar livre.

No painel 3, a inclusão da tabela "VENDA DE RITALINA (UPD POR 100 HABITANTES)" insere o modo estatístico/científico. Isso confere autoridade ao infográfico, provando que a patologização não é um debate apenas abstrato, mas um fenômeno mensurável de consumo de psicofármacos no Brasil entre 2008 e 2020.

Na parte superior existem chamadas explícitas com QR Codes ("Clique ou mire a sua câmera para acessar a audiodescrição e Libras do material"). Isso expande a multimodalidade para além da visão/texto, integrando o modo sonoro/auditivo e o modo espaço-gestual (Língua Brasileira de Sinais).

A presença de QR Codes adicionais ao longo dos painéis (para assistir a vídeos complementares no Painel 2 e para seguir o Fórum sobre Medicalização no Instagram no Painel 4), transformam o material impresso em uma porta de entrada para conteúdos digitais dinâmicos.

Este infográfico 
traduz a complexidade acadêmica em uma linguagem visualmente atraente e acessível a professores, famílias e profissionais de saúde e cumpre com excelência o papel de um produto educacional desmedicalizante, uma defesa visual da liberdade da infância e do direito de brincar sem rótulos.

Referência

OLIVEIRA, Rossana Dias. A QUEM SERVE O LAUDO? ALGUMAS PROBLEMATIZAÇÕES NA EDUCAÇÃO INFANTIL. dissertação. Mestrado Profissional em Educação, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES, 2025. Disponível em: https://educacao.ufes.br/sites/educacao.ufes.br/files/field/anexo/01_versao_final_da_dissertacao_96.pdf 

29 junho, 2025

Infográficos em inglês e espanhol sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

 


Os ODS devem ser incorporados no planejamento das aulas. Eles são uma boa oportunidade para trabalhar também nas práticas linguísticas.

Como os infográficos podem ajudar na apresentação de conteúdos, pelo apelo visual e pela síntese de informações, decidi reunir aqui os infográficos produzidos pela ONU em inglês e espanhol para cada ODS.

Observem que as informações não são iguais nas duas línguas. Isso permite complementar as informações em um trabalho com as duas línguas.

Com o tema dos ODS é possível trabalhar seguindo vários caminhos:

- Apresentar primeiro o ícone e descrição em português e desenvolver depois o trabalho nas outras línguas estrangeiras;

- Apresentar os infográficos e depois desenvolver um trabalho em cada língua estrangeira;

- Apresentar a descrição em português de cada ODS e pedir para pensar como seria sua tradução nas outras línguas.

Também é possível trabalhar com a multimodalidade, perguntando sobre as cores, os íconos utilizados, se usariam outros íconos para representar cada tema.  

Tudo isto pode ser relacionado também como os Temas Contemporâneos Transversais (TCT).

Vamos ver agora cada ODS e seus infográficos respectivos:     

 


 


--------------------------------------------------


 
  
  
 

--------------------------------------------------

https://gtagenda2030.org.br/ods/ods3/

 

 
 
 


 

--------------------------------------------------

  


 

 

 
--------------------------------------------------
    

 
 
 

 

--------------------------------------------------
   
 
 
 

 

 
--------------------------------------------------
  

 
 

 

 
--------------------------------------------------
  

 
 
 

 

--------------------------------------------------
  
 
 
 
 
 
 
--------------------------------------------------
 

 
 



--------------------------------------------------
  
 
 


--------------------------------------------------
  

 
 

 
--------------------------------------------------
 
 
 

 

--------------------------------------------------


 
 

 

--------------------------------------------------
 

 
 

 

--------------------------------------------------
 
 
 
 


 --------------------------------------------------
 
 
 

 

 

ODS em inglês: https://www.un.org/sustainabledevelopment/ 

ODS em espanhol: https://www.un.org/sustainabledevelopment/es/